quinta-feira, 22 de novembro de 2012

As Conferências do Casino Lisbonense



O casino Lisbonense, situado na hoje chamada Travessa da Trindade

As Conferências do Casino

Conjunto de conferências realizadas em Lisboa em 1871 que surgiu aquando das reuniões do "Cenáculo" e que teve como impulsionador Antero de Quental

Este é o ponto mais alto da Geração de 70. Visavam abrir um debate sobre o que de mais moderno, a nível de pensamento, se vinha fazendo lá fora. Aproximar Portugal da Europa era o objectivo máximo, anunciado, aliás, no respectivo programa. 

Das várias conferências previstas, só se realizaram cinco, pois a partir da sexta, as conferências foram proibidas pelo governo, sob a alegação que elas atacavam "a religião e as instituições políticas do Estado". 
Esta proibição levantou uma enorme onda de protestos de novo encabeçada por Antero de Quental. De qualquer modo, entre os intelectuais portugueses, ficou o gérmen da modernidade do pensamento político, social, pedagógico e científico que na França, na Alemanha e na Inglaterra se fazia sentir.
Este espírito revolucionário e positivista dominava a maioria da jovem classe pensante.

A Geração de 70



A Geração de 70

Assim se designa o grupo de jovens intelectuais portugueses que, primeiro em Coimbra e depois em Lisboa, manifestaram um descontentamento com o estado da cultura e das instituições nacionais. 
O grupo fez-se notar a partir de 1865, tendo Antero de Quental como figura de proa e de maior profundidade reflexiva, e integrando ainda Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, Teófilo Braga, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Jaime Batalha Reis e Guilherme de Azevedo. Juntos ou, como sucedeu mais tarde, trilhando caminhos de certa forma divergentes, estes homens marcaram a cultura portuguesa até ao virar do século (se não mesmo até à República), na literatura e na crítica literária, na historiografia, no ensaísmo e na política.

Os homens da Geração de 70 tiveram possibilidade e, sobretudo, apetência de contacto com a cultura mais avançada da Europa como não se via em Portugal desde o tempo da formação de um Garrett e de um Herculano. Puderam, pois, aperceber-se da diferença que havia entre o estado das ciências, das artes, da filosofia e das próprias formas de organização social no país e em nações como a Inglaterra, a França ou a Alemanha. Em consequência, esta juventude cosmopolita nas leituras, liberal e progressista não se revia nos formalismos estéticos que grassavam nem naquilo que consideravam ser a estagnação social, institucional, económica e cultural a que assistiam.

O seu inconformismo havia de se manifestar em diversas ocasiões, com repercussões públicas dignas de registo. Em 1865 é despoletada a chamada Questão Coimbrã, que opôs o grupo, a pretexto de uma obra literária de mérito discutível, ao ultra romantismo instalado que António Feliciano de Castilho personificava.

Travou-se uma acesa polémica, à qual subjaziam grandes diferenças ao nível das referências estéticas mas também ideológicas. 
O grupo reunir-se-ia depois na capital, formando o Cenáculo, e em 1871 organizou as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, com as quais chamou definitivamente a atenção da sociedade.

Nos anos seguintes, embora a atitude de crítica e de intervenção cultural e política se mantivesse, os membros do grupo foram definindo caminhos pessoais independentes, ora dedicando-se mais a umas actividades, ora a outras. Antero suicidou-se em 1891, e dir-se-ia que esse gesto simboliza o destino destes homens a caminho do final do século, em desilusão progressiva com o país e o sentido das suas próprias vidas.

"Os vencidos da Vida"




Os “Vencidos da Vida
Nome pelo qual ficou conhecido um grupo de onze intelectuais portugueses que tiveram destaque na vida literária e política do final do século XIX. 
Deste grupo faziam parte Oliveira Martins (autor da denominação Vencidos da Vida), Ramalho Ortigão, António Cândido, Guerra Junqueiro, Carlos Mayer, o marquês de Soveral, Carlos Lobo d'Ávila, o conde de Ficalho, Bernardo de Pindela e o conde de Sabugosa. Eça de Queirós juntou-se-lhes em 1889.

Reuniram-se com certa regularidade entre 1888 e 1894.

Encontravam-se para convívio intelectual e diversão no Tavares, no Hotel Bragança ou na residência de um dos participantes. Vários destes intelectuais estiveram associados a iniciativas de renovação da vida social e cultural portuguesa de então, como as Conferências do Casino
Como um grupo, ficaram conhecidos (embora não com inteira justiça) pelo seu diletantismo, por um certo mundanismo desencantado. Estes não eram, contudo, sinais de falta de profundidade intelectual, como comprovam as abundantes realizações dos seus membros na política, na diplomacia, na historiografia e na literatura.

"Os Maias" de Eça de Queiroz

"Os Maias" de Eça de Queiroz

A acção de "Os Maias" passa-se em Lisboa, na segunda metade do séc. XIX. Conta-nos a história de três gerações da família Maia.

A acção inicia-se no Outono de 1875, altura em que Afonso da Maia, nobre e rico proprietário, se instala no Ramalhete. O seu único filho – Pedro da Maia – de carácter fraco, resultante de uma educação extremamente religiosa e proteccionista à portuguesa, instigada pela mãe, casa-se contra a vontade do pai com a filha de um homem que fez fortuna com o tráfico de escravos africanos, Maria Monforte, de quem tem dois filhos – um menino e uma menina, Carlos Eduardo e Maria Eduarda. 

Mas a esposa, após conhecer Tancredo, um príncipe italiano que Pedro alvejara acidentalmente enquanto caçava, acaba por abandoná-lo para fugir com o napolitano levando consigo a filha, de quem nunca mais se soube o paradeiro.

Carlos Eduardo viria a ser entregue aos cuidados do avô, após o suicídio de Pedro da Maia devido ao desgosto da fuga da mulher que tanto amava.
Carlos passa a infância com o avô, recebendo uma educação rígida, à inglesa, com o perceptor Brown.
Forma-se depois em Medicina, em Coimbra. Regressa a Lisboa, ao Ramalhete, após a formatura, onde se vai rodear de alguns amigos como João da Ega, Alencar, Dâmaso Salcede, Euzebiozinho e o maestro Cruges, entre outros.

Seguindo os hábitos dos que o rodeavam, Carlos envolve-se com a condessa de Gouvarinho, que depois irá abandonar. 
Um dia fica deslumbrado ao conhecer, no Hotel Central, Maria Eduarda, que julgava ser mulher do brasileiro Castro Gomes. Segue-a algum tempo sem êxito, mas acaba por conseguir uma aproximação quando é chamado por ela para visitar, como médico, a sua governanta que adoecera.

Começam então os seus encontros com Maria Eduarda, visto que Castro Gomes estava ausente.
Castro Gomes descobre o sucedido e procura Carlos, dizendo-lhe que Maria Eduarda não é sua esposa, mas sim uma amante e que, portanto, pode ficar com ela.

Entretanto, chega de Paris Guimarães, que diz ter conhecido a mãe de Maria Eduarda e que a procura para lhe entregar um cofre que, segundo ela lhe dissera, continha documentos que identificariam e garantiriam à filha uma boa herança. Essa mulher era Maria Monforte – a mãe de Maria Eduarda e, portanto, também a mãe de Carlos. Os amantes eram irmãos.

Contudo, Carlos não aceita este facto e mantém abertamente a relação incestuosa com a irmã, ocultando-lhe o facto. Afonso da Maia, o velho avô, ao descobrir que Carlos, mesmo sabendo que Maria Eduarda é sua irmã continua a relação, morre de desgosto.

Ao tomar conhecimento dos factos, Maria Eduarda, agora rica, parte para o estrangeiro e Carlos, para se distrair, vai correr mundo.
O romance termina com o regresso de Carlos a Lisboa, passados 10 anos, e o seu reencontro com Portugal, exactamente como o deixara, e com Ega, que lhe diz: - "Falhámos a vida, menino!"….

No entanto, correm desesperadamente atrás de um transporte público, gritando “Ainda o apanhamos!

Afinal, o Futuro não está ainda de todo perdido…

A Crítica Social

A crónica de costumes da vida lisboeta da segunda metade do séc. XIX desenvolve-se num certo tempo, projecta-se num determinado espaço e é ilustrada por meio de inúmeras personagens intervenientes em diferentes episódios.

Lisboa é o espaço privilegiado do romance, onde decorre praticamente toda a vida de Carlos ao longo da acção. O carácter central de Lisboa deve-se ao facto da cidade concentrar, dirigir e simbolizar toda a vida do país. Lisboa é mais do que um espaço físico, é um espaço social. É neste ambiente monótono, amolecido e de clima rico, que Eça vai fazer a crítica social em que domina a ironia corporizada em certos tipos sociais, representantes de ideias, mentalidades, costumes, políticas, concepções do mundo, etc.

Vários são os episódios utilizados pelo autor para mostrar a vida da alta sociedade lisboeta. Destacamos os mais importantes: o jantar do Hotel Central, a corrida de cavalos, o jantar dos Gouvarinho, a Imprensa, a Educação o sarau do Teatro da Trindade e o episódio final que descreve o passeio de Carlos e João da Ega.

A Mensagem

A mensagem que o autor pretende deixar com esta obra é iminentemente crítica.
É através do paralelo entre Pedro e Carlos da Maia, que Eça concretiza a sua intenção. Note-se que ambos, apesar de terem tido educações totalmente diferentes, falharam na vida. Pedro falha com um casamento desastroso, que o leva ao suicídio; Carlos falha deixando-se afundar numa vida estéril e apagada, sem qualquer projecto seriamente útil e com uma ligação incestuosa, da qual sai para viajar para Paris.
Aliás uma viagem para o estrangeiro é a solução para os problemas de muitas personagens Queirosianas

Por outro lado, estas duas personagens representam também épocas históricas e políticas diferentes. Pedro, a época do Romantismo, e seu filho a Geração de 70 e das Conferências do Casino, geração potencialmente destinada ao sucesso

Assim, estas personagens representam os males de Portugal e o fracasso sucessivo das diferentes correntes estético-literárias. Fracasso que parece dever-se não às correntes em si, mas às características do povo português: a predilecção pela forma em detrimento do conteúdo, o diletantismo que impede a fixação num trabalho sério e interessante, a atitude "romântica" perante a vida, que consiste em desculpar sistematicamente, os próprios erros e falhas, dizendo que "Tudo é culpa da sociedade".
Simbolismo

O romance está repleto de símbolos.
Afonso da Maia é uma figura simbólica - o seu nome é simbólico, tal como o de Carlos - o nome do último Stuart, escolhido pela mãe. Carlos irá ser o último Maia – visto que não deixa filhos.
No Ramalhete, esta designação e o emblema (o ramo de girassóis) mostram a importância "da terra e da província" no passado da família Maia. A "gravidade clerical do edifício" demonstra a influência que o clero teve no passado da família e em Portugal.

Por oposição, as obras de restauro levadas a cabo por Carlos introduziram o luxo e a decoração cosmopolita e simbolizam uma nova oportunidade, uma reforma da casa (ou do país) para uma nova etapa - é o reflexo do ideal reformista da Geração de Carlos. Carlos é um símbolo da Geração de 70, tal como o é Ega. Tal como o país, também eles se tornaram “vencidos da Vida”.
No último capítulo, a imagem deixada pelo Ramalhete, abandonado e tristonho, cheio de recordações de um passado de tragédia e frustrações, está muito relacionado com o modo como Eça via o país, em plena crise do regime.

O quintal do Ramalhete também sofre uma evolução. No primeiro capítulo, a cascata está seca porque o tempo da acção d' Os Maias ainda não começou. No último capítulo, o fio de água da cascata é símbolo da eterna melancolia do tempo que passa, dos sentimentos que leva e traz e mostra-nos também que o tempo está mesmo a esgotar-se e o final da história d' Os Maias está próximo. Este choro simboliza também a dor pela morte de Afonso da Maia.

 A estátua de Vénus que enegrece com a fuga de Maria Monforte, no último capítulo aparece coberta de ferrugem, simbolizando o desaparecimento de Maria Eduarda.
A estátua marca então o início e o fim da acção principal. Ela é também símbolo das mulheres fatais d' Os Maias - Maria Eduarda e Maria Monforte.

No quarto de Maria Eduarda, na Toca, o quadro de São João Baptista com a cabeça degolada é um símbolo e presságio de desgraça. Os seus aposentos simbolizam o carácter trágico, a profanação das leis humanas e cristãs.

Também o armário do salão nobre da Toca tem uma simbologia trágica: os guerreiros simbolizam a heroicidade, os evangelistas a religião e os trofeus agrícolas o trabalho: qualidades que existiram um dia na família (e no Portugal da epopeia). Os dois faunos simbolizam o desastre do incesto decorrido entre Carlos e Maria Eduarda. No final um partiu o seu pé de cabra e o outro a flauta bucólica, pormenores que parecem simbolizar o desafio sacrílego dos faunos a tudo quanto era grandioso e sublime na tradição dos antepassados.
No final, a estátua de Camões é o símbolo da nostalgia do passado mais recuado.

Não é difícil lermos o percurso da família Maia nas alterações sofridas pelo Ramalhete. No início o palacete não tem vida; uma vez habitado, torna-se símbolo da esperança e da vida, é como que um renascimento; finalmente, a tragédia abate-se sobre a família e eis a cascata chorando, deitando as últimas gotas de água, a estátua coberta de ferrugem; tudo tem um carácter lúgubre. Note-se que as paredes do Ramalhete foram sempre sinal de desgraça para a família Maia. O cedro e o cipreste são árvores que pela sua longevidade, significam a vida e a morte e foram testemunhas das várias gerações da família. Mas também simbolizam a amizade inseparável de Carlos e João da Ega.

A morte instala-se nesta família. No Ramalhete todo o mobiliário degradado e disposto em confusão, todos os aposentos melancólicos e frios, tudo deixa transparecer a realidade de destruição e morte. E se os Maias representam Portugal, a morte instalou-se no país.

A Toca é o nome dado à habitação de certos animais o que, desde logo, parece simbolizar o carácter animalesco do relacionamento de Carlos e Maria Eduarda. Na primeira vez que lá vai, Carlos introduz a chave no portão com todo o prazer, o que sugere o poder e o prazer das relações incestuosas; da segunda vez ambos a experimentam - a chave torna-se, portanto, o símbolo da mútua aceitação e entrega. Os aposentos de Maria Eduarda simbolizam o carácter trágico, a profanação das leis humanas e cristãs.

O romance está também povoado de símbolos cromáticos: a cor vermelha tem um carácter duplo e Maria Monforte e Maria Eduarda são portadoras de um vermelho feminino, despertam a sensualidade à sua volta e espalham a morte. O vermelho é, portanto, o símbolo da paixão excessiva e destruidora. 

Já o vermelho da vila Balzac é muito intenso, indicando a dimensão essencialmente carnal e efémera dos encontros de amor de Ega e Raquel Cohen. O tom dourado está também presente, indicando a paixão ardente, anunciando a velhice (o Outono) e a proximidade da morte. Morte prefigurada pela cor negra, símbolo de uma paixão possessiva e destruidora.
Mãe e filha conjugam em si estas três cores: elas são, portanto, vida e morte, o divino e o humano, a aparência e a realidade, a força que se torna fraqueza.
Constatamos que a simbologia d' Os Maias possui uma função claramente anunciadora da tragédia.


Personagens

As personagens intervenientes na acção d' Os Maias são cerca de 60. Cingimo-nos às personagens principais e a algumas personagens- tipo que consideramos importantes para o desenrolar da acção. São personagens centrais Afonso da Maia, Pedro da Maia, Carlos da Maia, Maria Eduarda e Maria Monforte. As personagens- tipo são muitas e enumeramos algumas: João da Ega, Alencar, Conde de Gouvarinho, Condessa de Gouvarinho, Craft, Cruges, Cohen, Dâmaso Salcede, Eusebiozinho, Palma Cavalão, Guimarães….
Personagens principais

Afonso da Maia

Caracterização física

Afonso é baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes, cara larga, o nariz aquilino e a pele corada. O cabelo é branco, muito curto e a barba branca e comprida. Como dizia Carlos: "lembrava um varão esforçado das idas heroicas, um D. Duarte Meneses ou um Afonso de Albuquerque".

Caracterização Psicológica

Provavelmente o personagem mais simpático do romance e aquele que o autor mais valorizou. Não se lhe conhecem defeitos. É um homem de carácter, culto e requintado nos gostos. Enquanto jovem adere aos ideais do Liberalismo e é obrigado pelo seu pai a sair de casa; instala-se em Inglaterra mas, falecido o pai, regressa a Lisboa para casar com Maria Eduarda Runa, que nunca se adapta à vida no estrangeiro.
Mais tarde, dedica a sua vida ao neto Carlos. Já velho, passa o tempo em conversas com os amigos, lendo com o seu gato – Reverendo Bonifácio – aos pés, opinando sobre a necessidade de renovação do país. É generoso para com os amigos e os necessitados. Ama a natureza e o que é pobre e fraco. Tem altos e firmes princípios morais. Morre de uma apoplexia, quando descobre os amores incestuosos dos netos.

Pedro da Maia

Caracterização Física

Pequenino, face oval de "um trigueiro cálido", olhos belos – "assemelhavam-no a um belo árabe".

Caracterização Psicológica

Pedro da Maia apresenta um temperamento nervoso, fraco e de grande instabilidade emocional. Após a morte da mãe tem assiduamente crises de "melancolia negra que o traziam dias e dias, murcho, amarelo, com as olheiras fundas e já velho". Eça de Queirós dá grande importância à vinculação desta personagem ao ramo familiar dos Runa na sua semelhança psicológica.
Pedro é vítima do meio lisboeta em que se insere e de uma educação retrógrada. O seu único sentimento vivo e intenso fora a paixão pela mãe. Depois, experimenta a loucura de uma paixão cega por Maria Monforte, apesar dos avisos do pai. Apesar da robustez física é de uma enorme cobardia moral, como demonstra na reacção do suicídio face à fuga da mulher. Falha no casamento e falha como homem.

Carlos da Maia

Caracterização Física

Carlos é um belo e magnífico rapaz. É alto, bem constituído, de ombros largos, olhos negros, pele branca, cabelos negros e ondulados. Tem barba fina, castanha escura, pequena e aguçada no queixo. O bigode é arqueado aos cantos da boca. Como diz Eça, tem uma fisionomia de "belo cavaleiro da Renascença".

Caracterização Psicológica

Carlos é culto, bem-educado, de gostos requintados. Ao contrário do seu pai, é fruto de uma educação à Inglesa, amigo do seu amigo e generoso. Destaca-se na sua personalidade o cosmopolitismo, a sensualidade, o gosto pelo luxo, e diletantismo (incapacidade de se fixar num projecto sério e de o concretizar). Todavia, apesar da educação, Carlos fracassou. Falhou em parte por causa do meio onde se instalou – uma sociedade parasita, ociosa, fútil e sem estímulos, e devido a aspectos hereditários – a fraqueza e a cobardia do pai, o egoísmo, o futilidade e o espírito boémio da mãe.

Maria Eduarda

Caracterização Física

Maria Eduarda é uma bela mulher alta, loira, bem-feita, sensual mas delicada, "com um passo soberano de deusa", é "flor de uma civilização superior, faz relevo nesta multidão de mulheres miudinhas e morenas". Era bastante simples na maneira de vestir, "divinamente bela, quase sempre de escuro, com um curto decote onde resplandecia o incomparável esplendor do seu colo".

Caracterização psicológica

Podemos verificar que, ao contrário das outras personagens femininas, Maria Eduarda nunca é criticada. Eça manteve sempre esta personagem à distância, a fim de possibilitar o desenrolar de um desfecho dramático (a personagem cumpre um papel de vítima passiva). 
Maria Eduarda é então delineada em poucos traços e o seu passado é quase desconhecido, o que contribui para o aumento de encanto que a envolve. A sua caracterização é feita através do contraste entre si e as outras personagens femininas mas, ao mesmo tempo, chega-nos através do ponto de vista de Carlos da Maia, para quem tudo o que viesse de Maria Eduarda era perfeito, "Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome dela; e pareceu-lhe perfeito, condizendo bem com a sua beleza serena."
Uma vez descoberta toda a verdade da sua origem, o seu comportamento mantém-se afastado da crítica de costumes (o seu papel na intriga amorosa está cumprido), e a personagem afasta-se discretamente de cena com enorme dignidade.

Maria Monforte

Caracterização Física

É extremamente bela e sensual. Tem os cabelos loiros, "a testa curta e clássica, o colo ebúrneo". Um modelo de Rubens, o ideal de beleza feminino Queirosiano.

Caracterização Psicológica

É vítima da literatura romântica e daqui deriva o seu carácter pobre, excêntrico e excessivo.
Leviana e imoral, educada com mimo excessivo pelo pai é, em parte, a culpada das desgraças da família Maia. Age por amor, não por maldade. Morto Tancredo num duelo, leva uma vida dissipada e morre quase na miséria. Deixa um cofre a um conhecido português - o democrata  Guimarães - com documentos que podem identificar a filha a quem nunca revelou as origens.

Personagens-tipo

João da Ega

Caracterização Física

Ega usava "um vidro entalado no olho", tinha "nariz adunco, pescoço esganiçado, punhos tísicos, pernas de cegonha": o autêntico retrato de Eça.

Caracterização Psicológica

João da Ega é a projecção literária de Eça de Queirós. É um personagem contraditório. Por um lado, romântico e sentimental, por outro, progressista e crítico, sarcástico do Portugal Constitucional. É o Mefistófeles de Celorico, amigo íntimo de Carlos desde os tempos de Coimbra, onde se formara em Direito (muito lentamente...). A mãe é uma rica viúva e beata, que vive ao pé de Celorico de Basto com a filha.
 Boémio, excêntrico, exagerado, caricatural, anarquista, sem Deus e sem moral, é leal com os amigos.
Sofre também de diletantismo, concebe grandes projectos literários que nunca chega a executar. Terminado o curso, vem viver para Lisboa e torna-se amigo inseparável de Carlos. Como Carlos, também tem a sua grande paixão - Raquel Cohen. 
Ega, um falhado corrompido pela sociedade, encarna a figura defensora dos valores da escola realista por oposição à romântica. Na prática, revela-se como eterno romântico. Nos últimos capítulos ocupa um papel de grande relevo no desenrolar da intriga. É a ele que Guimarães entrega o cofre. É juntamente com ele, que Carlos revela a verdade a Afonso. É ele que diz a verdade a Maria Eduarda e a acompanha quando esta parte para Paris definitivamente: substitui Carlos, que tem uma atitude cobarde.

Conde de Gouvarinho

Caracterização Física

É ministro e par do Reino. Tem um bigode encerado e uma pera curta.

Caracterização Psicológica

Voltado para o passado, tem lapsos de memória e revela uma enorme falta de cultura. Não compreende a ironia sarcástica de Ega. Representa a incompetência do poder político, principalmente dos altos cargos.
Fala de um modo depreciativo das mulheres.


Condessa de Gouvarinho

Caracterização Física

Cabelos crespos e ruivos, nariz petulante, olhos escuros e brilhantes, elegante, pele clara, fina e doce; é casada com o conde de Gouvarinho e filha de um comerciante do Porto.

Caracterização Psicológica

É imoral e sem escrúpulos. Trai o marido com Carlos, sem qualquer tipo de remorsos. Questões de dinheiro e a mediocridade do conde fazem com que o casal se desentenda. Envolve-se com Carlos e revela-se apaixonada e impetuosa. Carlos deixa-a e acaba por perceber que é uma mulher sem qualquer interesse, demasiado fútil.

Dâmaso Salcede

Caracterização Física

Baixo, gordo, "frisado como um noivo de província". É sobrinho de Guimarães. A ele e ao tio se devem, respectivamente, o início e o fim dos amores de Carlos com Maria Eduarda.

Caracterização Psicológica

Dâmaso é uma súmula de defeitos. Filho de um agiota, é presumido, cobarde e sem dignidade. É dele a carta anónima enviada a Castro Gomes, que revela o envolvimento de Maria Eduarda com Carlos. É dele também a notícia contra Carlos n' A Corneta do Diabo. Mesquinho e convencido, provinciano e tacanho, tem uma única preocupação na vida, o "chic a valer".
Representa o novo-riquismo e os vícios da Lisboa da segunda metade do séc. XIX. O seu carácter é tão baixo que se retrata como um bêbado, só para evitar bater-se em duelo com Carlos.

 Guimarães

Caracterização Física

Usa largas barbas e um grande chapéu de abas à moda de 1830.

Caracterização Psicológica

Conheceu Maria Monforte, que lhe confiou um cofre contendo documentos que identificam a filha. Guimarães é, portanto, o mensageiro da trágica verdade que destruirá a felicidade de Carlos e de Maria Eduarda.

Alencar

Caracterização Física

Tomás de Alencar era "muito alto, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos, espessos, românticos bigodes grisalhos".

Caracterização Psicológica

Era calvo, em toda a sua pessoa "havia alguma coisa de antiquado, de artificial e de lúgubre". Simboliza o romantismo piegas.
Paladino da moral, é também o companheiro e amigo de Pedro da Maia. Não tem defeitos e possui um coração grande e generoso. É o poeta do ultra-romantismo.
Eça serve-se desta personagem para construir discussões de Escola entre naturalistas e românticos, numa versão caricatural da Questão Coimbrã.


Cruges

Caracterização Física

"De grenha crespa que lhe ondulava até à gola do jaquetão", "olhinhos piscos" e nariz espetado.

Caracterização Psicológica

Maestro e pianista patético, é amigo de Carlos e íntimo do Ramalhete. Demasiado chegado à sua velha mãe, com quem vive é, segundo Eça, "um diabo adoidado, maestro, pianista com uma pontinha de génio".
É desmotivado devido ao meio lisboeta - "Se eu fizesse uma boa ópera, quem é que ma representava?"…
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Craft

É uma personagem com pouca importância para o desenrolar da acção, mas que representa a formação britânica, o protótipo do que deve ser um homem. Defende a arte pela arte, a arte como idealização do que há de melhor na natureza.
É culto e forte, de hábitos rígidos, "sentindo finamente, pensando com rectidão", inglês rico e boémio, coleccionador de "bric-a-brac".

Eusebiozinho

Eusebiozinho representa a educação retrógrada portuguesa.
Também conhecido por Silveirinha, é o primogénito de uma das Silveiras - senhoras ricas e beatas. Amigo de infância de Carlos, brincava com ele em Santa Olávia levando pancada continuamente, contrastando na educação. Cresceu cobarde, molengão, tristonho e corrupto. Casou-se, mas enviuvou cedo.
Procurava, para se distrair, bordéis ou aventureiras de ocasião pagas à hora.

Cohen

É o banqueiro corrupto e incompetente, achando imensa graça ao facto do país estar em bancarrota.
Resolve os adultérios constantes da esposa com enormes e regulares tareias


                                                                  Acção

Em “Os Maias” podemos distinguir dois níveis de acção: a crónica de costumes - acção aberta; e a intriga - acção fechada, que se divide em intriga principal e intriga secundária.
São, aliás, estes dois níveis de acção que justificam a existência de título e subtítulo nesta obra. O título - Os Maias - corresponde à intriga, enquanto que o subtítulo - Episódios da Vida Romântica - corresponde à crónica de costumes.

Na intriga secundária temos: a história de Afonso da Maia - época de reacção do Liberalismo ao Absolutismo; a história de Pedro da Maia e Maria Monforte - época de instauração do Liberalismo e consequentes contradições internas; a história da infância e juventude de Carlos da Maia - época de decadência das experiências liberais.

Na intriga principal são retratados os amores incestuosos de Carlos e Maria Eduarda, que terminam com a desagregação da família - morte de Afonso e separação de Carlos e Maria Eduarda. Carlos é o protagonista da intriga principal. Teve uma educação à inglesa e tirou o curso de medicina em Coimbra. A educação de Maria Eduarda foi completamente diferente, donde se conclui que a sua paixão não foi condicionada pela educação, nem pela hereditariedade, nem pelo meio. A sua ligação amorosa foi comandada à distância por uma entidade que se denomina destino.

A acção principal d' Os Maias desenvolve-se segundo os moldes da tragédia clássica - peripécia, reconhecimento e catástrofe.
A peripécia verificou-se com o encontro casual de Maria Eduarda com Guimarães, com as revelações casuais do Guimarães a Ega sobre a identidade de Maria Eduarda e com as revelações a Carlos e Afonso da Maia também sobre a identidade de Maria Eduarda.

O reconhecimento, trazido pelas revelações de Guimarães, torna a relação entre Carlos e Maria Eduarda incestuosa, provocando a catástrofe consumada pela morte do avô; a separação definitiva dos dois amantes e as reflexões de Carlos e Ega.

O Espaço

Espaço Físico


Exteriores:

A maior parte da narrativa passa-se em Portugal, mais concretamente em Lisboa e arredores.
Em Santa Olávia passa-se a infância de Carlos. É também para lá que este foge quando descobre a sua relação incestuosa com a irmã.
Em Coimbra passam-se os estudos de Carlos e as suas primeiras aventuras amorosas.
É em Lisboa que se dão os acontecimentos que levam Afonso da Maia ao exílio; é em Lisboa que sucedem os acontecimentos essenciais da vida de Pedro da Maia; e é também na capital que decorre a vida de Carlos que justifica o romance - a sua relação incestuosa com a irmã.

O estrangeiro surge-nos como um recurso para resolver problemas. Afonso exila-se em Inglaterra para fugir à intolerância Miguelista; Pedro e Maria vivem em Itália e em Paris devido à recusa deste casamento pelo pai de Pedro; Maria Eduarda segue para Paris quando descobre a sua relação incestuosa com Carlos; o próprio resolve a sua vida falhada com a fixação definitiva em Paris.

Deve referir-se como importante espaço exterior Sintra, palco de vários encontros, quer relativos à crónica de costumes, quer à relação amorosa dos protagonistas.

Interiores:

Vários são os espaços interiores referidos n' Os Maias:

No Ramalhete podemos encontrar: o salão de convívio e de lazer, o escritório de Afonso, que tem o aspecto de uma "severa câmara de prelado", o quarto de Carlos, "com um ar de quarto de bailarina" e os jardins.
A acção desenrola-se também na vila Balzac, que reflecte a sensualidade de João da Ega. É referido também na obra o luxuoso consultório de Carlos, que revela o seu diletantismo e a predisposição para a sensualidade através da presença de um divã, "móvel de amor" na opinião de Ega.
A Toca é também um espaço interior carregado de simbolismo, que revela amores ilícitos. São ainda referidos outros espaços interiores de menor importância como o apartamento de Maria Eduarda, o Teatro da Trindade, a casa dos condes de Gouvarinho, o Grémio, o Hotel Central, os hotéis de Sintra, a redacção d' A Tarde e
d' A Corneta do Diabo, etc.


Espaço Social

O espaço social comporta os ambientes (jantares, chás, soirés, bailes, espectáculos), onde actuam as personagens que o narrador julgou melhor representarem a sociedade por ele criticada – as classes dirigentes, a alta aristocracia e a burguesia.
Destacamos o jantar do Hotel Central, os jantares em casa dos Gouvarinho, Santa Olávia, a Toca, as corridas do Hipódromo, as reuniões na redacção d' A Tarde, o Sarau Literário no Teatro da Trindade - ambientes fechados de preferência, por razões de elitismo.
O espaço social cumpre um papel puramente crítico.



Espaço Psicológico

O espaço psicológico é constituído pela consciência das personagens e manifesta-se em momentos de maior densidade dramática. É sobretudo Carlos quem desvenda os labirintos da sua consciência, ocupando também Ega um lugar de relevo.
Destacamos, como espaço psicológico, o sonho de Carlos no qual evoca a figura de Maria Eduarda; nova evocação dela em Sintra; reflexões de Carlos sobre o parentesco que o liga a Maria Eduarda; visão do Ramalhete e do avô, após o incesto; contemplação de Afonso morto no jardim.
Quanto a Ega, reflexões e inquietações após a descoberta da identidade de Maria Eduarda.
O espaço psicológico permite definir estas personagens como personagens modeladas.


Tempo

O romance não apresenta um seguimento temporal linear mas, pelo contrário, uma estrutura complexa na qual se integram tempo histórico, tempo do discurso e tempo psicológico.

Tempo Histórico

Entende-se por tempo histórico aquele que se desdobra em dias, meses e anos vividos pelas personagens, reflectindo até acontecimentos cronológicos históricos do país.
N' Os Maias, o tempo histórico é dominado pelo encadeamento de três gerações de uma família, cujo último membro, Carlos, se destaca relativamente aos outros. A fronteira cronológica situa-se entre 1820 e 1887, aproximadamente. Assim, o tempo concreto da intriga compreende cerca de 70 anos.



Tempo do Discurso

Por tempo do discurso entende-se aquele que se detecta no próprio texto organizado pelo narrador, ordenado ou alterado logicamente, alargado ou resumido.
Na obra, o discurso inicia-se no Outono de 1875, data em que Carlos, concluída a sua viagem de um ano pela Europa após a formatura, veio com o avô instalar-se definitivamente em Lisboa. 
Pelo processo de analepse, o narrador vai, até parte do capítulo IV, referir-se aos antepassados do protagonista (juventude e exílio de Afonso da Maia, educação, casamento e suicídio de Pedro da Maia, e à educação de Carlos da Maia e sua formatura em Coimbra) para recuperar o presente da história que havia referido nas primeiras linhas do livro. 
Esta primeira parte pode considerar-se uma novela introdutória, que dura quase 60 anos. A analepse ocupa apenas 90 páginas, apresentada por meio de resumos e elipses. Assim, o tempo histórico é muito mais longo do que o tempo do discurso. Do Outono de 1875 a Janeiro de 1877 - data em que Carlos abandona o Ramalhete - existe uma tentativa para que o tempo histórico (pouco mais de um ano da vida de Carlos) seja idêntico ao tempo do discurso - cerca de 600 páginas. Para isso Eça serve-se muitas vezes da cena dialogada. O último capítulo é uma elipse (salto no tempo) onde, passados 10 anos, Ega se encontra com Carlos em Lisboa.


Tempo Psicológico

O tempo psicológico é o tempo que a personagem assume interiormente: é o tempo filtrado pelas suas vivências subjectivas, muitas vezes carregado de densidade dramática. É o tempo que se alarga ou se encurta conforme o seu estado de espírito.

No romance é possível evidenciar alguns momentos de tempo psicológico nalgumas personagens:
Pedro da Maia, na noite em que se deu o desaparecimento de Maria Monforte e o comunica a seu pai; Carlos, quando recorda o primeiro beijo que lhe deu a condessa de Gouvarinho ou, na companhia de João da Ega, contempla, já no final de livro, após a sua chegada de Paris, o velho Ramalhete abandonado e ambos recordam o passado com nostalgia numa visão pessimista do Mundo e das coisas. É o caso de "agora o seu dia estava findo: mas, passadas as longas horas, terminada a longa noite, ele penetrava outra vez naquela sala de repes vermelhos...".
O tempo psicológico introduz a subjectividade, o que põe em causa as leis do naturalismo.